Abre-caminho.
Quarta-feira18, Junho, 08
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Hoje aconteceu um tipo de sopa ou creme inspirada num prato moçambicano que comemos uma vez na casa da Marta. A base é cozinhar bastante pedaços de abóbora Hokkaido (tenho preguiça então comprei cortada e descascada na feira. Hokkaido é uma ilha no Japão onde aposto que a comida é incrível mas que andou meio mal frequentada ultimamente). Quando A Bóbora estiver mole junte um vidrinho de leite de coco e os temperos: alho, gengibre e pimenta dedo-de-moça – pra abrir caminho. Deixe apurar, ponha sal, acerte e pronto. A Marta naquele dia caprichou no alho. Eu coloquei um dente de alho, uma lasca boa de gengibre e meia pimentona, tudo bem picadinho. E mandei ver coentro, por que algo me dizia que ia coentro,
a cultura a civilização
elas que se danem ou não
eu gosto mesmo
é de comer com coentro
(Gilberto Gil)
Não precisa colocar se não quiser. Fica sendo assim uma receita livre, A Bóbora Sul-Sul do poder popular.
Receita perfeitamente vegana, vejam só!
Triglie Montalbano
Terça-feira17, Junho, 08
A gente vive dizendo que cozinhar sozinha, pra si mesma é meio chato. Mas quando a fome encontra a vontade de ser feliz ninguém segura. E depois de um periodo comendo mal e pagando caro fui à feira. Comprei ingredientes para comer em casa a semana toda e até convidar amigos. E passando pela banca dos peixes, encontrei um peixe que eu só conhecia de literatura: a trilha, ou triglia.

São uns peixinhos avermelhados muito bonitos, que eu reconheci pelas fotos de um livro de cozinha toscana que tenho aqui. Parece que o mais comum é que sejam ligeiramente empanadas em farinha de trigo e fritas. Mas eu não me meto com fritura em casa. Quem sempre se refestela em pratos com trilhas é o Comissario Montalbano, na cidadezinha siciliana de Vigata, nos romances policiais de Andrea Camilleri. Daí que com essas referências eu tinha uma quase certeza que a triglia era um bicho absolutamente mediterrâneo. Contente que estava esqueci de perguntar ao peixeiro, mas não devem ter vindo de muito longe as trilhas que comprei aqui, porque custavam 8 reais o quilo, o que é barato, o quilo do cação na mesma feira do “alto da” zona oeste custa 14 reais, pra se ter uma idéia. Voltei com sete triglie somando meio quilo na sacola, dei uma pesquisada nas receitas toscanas e fiz o seguinte:
Quatro trilhas limpas, com cabeça e tudo. Ainda tirei uma barbatana de cima pra não me engasgar. Refoguei quatro dentes de alho bem picados, e um tomate italiano maduro cortadinho em bastante azeite de oliva. Arrumei as bichinhas nesse refogado, todas no fundo da frigideira alta, salguei e deixei rolar em fogo meio alto. Quando fui tentar virá-las descobri que já estavam se desfazendo, é bem rápido mesmo. Virei e elas desmontaram mas o cheiro estava incrível e o aspecto permanecia ótimo. Então cobri de cheiro verde picadinho e levei frigideira e tudo direto para a mesa, junto com um pratinho para deixar cabeças e espinhas. São espinhosas de modo que você acaba usando as mãos – tem que se entregar, sabendo que essa vida não é só filé… mas é bonita! Limpei a frigideira com a ajuda de duas fatias de pão italiano.
Che cuntintizza!
Desmanteladas e divinas, le Triglie Montalbano estão eleitas o melhor prato que já fiz para mim mesma em todos os tempos. Na próxima aprendo a mantê-las inteiras no cozimento.
Aqui tem algumas receitas dos pratos que aparecem nas aventuras do comissario. Alguns romances viraram uma série de TV, com roteiro do próprio Camilleri, paisagens fantásticas da Sicilia, trilha sonora de verdade e um ator incrível chamado Luca Zingaretti (o careca bonitão que aparece na foto do site). Passou aqui na TV a cabo, não sei se ainda passa. Recomendo vivamente.
Breve desabafo
Quinta-feira12, Junho, 08
As tias não são veganas e a receita parece ótima. Inclusive a tia O. acabou de comprar tofu (orgânico, junto com o pessoal purple-verde) e vai experimentar esse fim de semana, mas…
A tia O. é corinthiana pracaráleo e o Corinthians perdeu uma final com pênalti roubado aos 40 do segundo tempo e o juiz é certo que tem sérios problemas, sejam eles de (falta de) caráter e/ou de foro íntimo, ou não teria cometido tal atentado!
Tô p., corinthiana purple puta da vida! Em ritmo de introdução do “Amigo”:
“Não pára, não pára, não pára, / Não pára, não pára, não pára, / Não pára, não pára, não pára, / Vai pra cima Timão…”
Minha sorte é não ter tendência a hipertensão.
Veganas buena onda.
Quarta-feira11, Junho, 08
As tias nãos são veganas. Tia O. não come carne de bichos que andam ou vôam (ce come anfíbios, tia? e répteis?), porque se sente melhor assim, não toma leite porque lhe pesa na vida. Eu como tudo: de folhagens a tripas sanguinolentas, de quiabo a monstros marinhos. Ambas temos contradições e pensamos bastante a respeito de comida, cada uma a seu modo. E temos amigos e amigas vegans, vários, com quem conversamos também sobre comida. Na boa, porque uma coisa que ninguém precisa é de catecismo sobre o que come ou deixa de comer. Pensar sobre o que a gente come é como pensar sobre o que a gente é, nada se resolve por decreto. Eu sinceramente acho nunca vou escolher margarina à manteiga, nem deixar de me reconhecer na rabada com polenta da minha mãe, num bom pedaço de morcilla, no cabrito assado, na salada de lulas que meu pai apronta ou na leitoa pururuca da minha tia Irani. Mas conhecer as receitas dessas pessoas veganas e libertárias, cozinhar para elas e com elas só enriquece a minha vida omnívora. Porque a casa das tias não é vegana, mas é muito, muito antropofágica.

Para começar…
Patê de Lelê
250 gramas de Tofu picado
1 col. (sopa) de salsa e cebolinha (preferencialmente frescas)
1 col. (sobremesa) de orégano ou manjericão (fresco)
pitadas de páprica picante
3 col. (sopa) azeite
2 dentes de alho amassados
sal a gosto
Bater todos os ingredientes no liquidificador até misturar e ficar uma mistura homogenea. pode acrescentar um pouquinho de água para ficar mais cremoso. Servir com pão francês, italiano, sueco, torradinhas integrais, legumes crus fatiados…
sugestão de temperos: ervas finas, manjericão, hortelã…
Feijoada Vegana
1 xícara de PVT grossa (proteína vegetal texturizada)
1 xícara de cenoura
1 xícara de mandioquinha
3 colheres de sopa de óleo vegetal
2 dentes de alho (ou mais)
sal, salsinha, cebola, pimenta e louro a gosto